Benvindos a ACLA, o destino natural de todo espírito nobre, justo e denodado que morre pela causa em campo de batalha, tais como Augusto dos Anjos, Euclides da Cunha, Emílio de Menezes, Cândido Portinari etc e desfrutam do carinho incondicional de seus fãs ao longo das gerações.Pena que aqui, só entram na horizontal...
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domingo, 28 de setembro de 2014
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
quarta-feira, 24 de setembro de 2014
segunda-feira, 22 de setembro de 2014
sábado, 20 de setembro de 2014
quarta-feira, 17 de setembro de 2014
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE, O GAUCHE * Antonio Cabral Filho - Rj

-Antologia da Lapa, Gasparino Damata, Codecri 1978-
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
http://www.carlosdrummond.com.br/
*
terça-feira, 16 de setembro de 2014
MANUEL BANDEIRA, DESDE A LAPA * Antonio Cabral Filho =- Rj

MANUEL BANDEIRA
http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=249
*
segunda-feira, 15 de setembro de 2014
domingo, 14 de setembro de 2014
MÁRIO DE ANDRADE / MACUNAIMA * Antonio Cabral Filho - Rj
MÁRIO DE ANDRADE
por
Tarsila do Amaral
*
Biblioteca Mário de Andrade
http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bma/
*
http://www.pactoaudiovisual.com.br/mestres_final/mario/transcricao.htm
*
sexta-feira, 12 de setembro de 2014
MACHADO DE ASSIS / CAROLINA * Antonio Cabral Filho - Rj

MACHADO DE ASSIS
TODA A POESIA
http://machado.mec.gov.br/index.php/obra-completa-menu-principal-173/165-poesia
***
quinta-feira, 11 de setembro de 2014
LIMA BARRETO / POLICARPO QUARESMA * Antonio Cabral Filho - Rj
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
CRUZ E SOUZA, ETERNO * Antonio Cabral Filho - Rj
CRUZ E SOUZA
(http://biografias100.blogspot.com.br/2013/06/cruz-e-sousa-biografia-obras-e.html)
*
Cruz e Sousa - biografia, obras e características
Artigo sobre a vida, obras e características de João Cruz e Sousa grande escritor do Simbolismo no Brasil.
Cruz e Sousa
João da Cruz e Sousa nasceu em Desterro, atual Florianópolis. Filho de escravos alforriados pelo Marechal Guilherme Xavier de Sousa, seria acolhido pelo Marechal e sua esposa como o filho que não tinham. Foi educado na melhor escola secundária da região, mas com a morte dos protetores foi obrigado a largar os estudos e trabalhar.
Foi diretor do jornal abolicionista Tribuna Popular em 1881. Dois anos mais tarde, foi nomeado promotor público de Laguna (SC), no entanto, foi recusado logo em seguida por ser negro.
Em 1890 vai para o Rio de Janeiro, onde entra em contato com a poesia simbolista francesa e seus admiradores cariocas. Colabora em alguns jornais e, mesmo já bastante conhecido após a publicação de Missal e Broquéis (1893), as quais são consideradas o marco inicial do Simbolismo no Brasil que perduraria até 1922 com a Semana de Arte Moderna, só consegue arrumar um emprego miserável na Estrada de Ferro Central.
Casa-se com Gavita, também negra, com quem tem quatro filhos, dois dos quais vêm a falecer precocemente por tuberculose. Sua mulher enlouquece e passa vários períodos em hospitais psiquiátricos.
Foi o escritor quem cuidou da esposa, em casa mesmo. Essa é a temática de muitos poemas de Cruz e Sousa. A linguagem de Cruz e Sousa, herdada do Parnasianismo, é requintada, porém criativa, na medida em que dá ênfase à musicalidade dos versos por intermédio da exploração dos aspectos sonoros dos vocábulos.
Cruz e Sousa faleceu aos 36 anos, em 19 de março de 1898, vítima do agravamento no quadro de tuberculose.
Veja um trecho do poema “Cristais”, no qual é claro o uso da sinestesia, recurso estilístico que associa dois sentidos ou mais (audição, visão, olfato, etc.):
Mais claro e fino do que as finas pratas
o som da tua voz deliciava…
Na dolência velada das sonatas
como um perfume a tudo perfumava.
Era um som feito luz, eram volatas
em lânguida espiral que iluminava,
brancas sonoridades de cascatas…
Tanta harmonia melancolizava.
Filtros sutis de melodias, de ondas
de cantos volutuosos como rondas
de silfos leves, sensuais, lascivos…
Como que anseios invisíveis, mudos,
da brancura das sedas e veludos,
das virgindades, dos pudores vivos.
Principais obras de Cruz e Sousa
- Missal (prosa)
- Broquéis (poesia)
- Tropos e fantasias
- Faróis
- Últimos soneto
- Evocações
- Sorriso interior
- Triunfo Supremo
- Vida obscura
Principais características das obras de Cruz e Sousa
- No plano temático: a morte, a transcendência espiritual, a integração cósmica, o mistério, o sagrado, o conflito entre matéria e espírito, a angústia e a sublimação sexual, a escravidão e uma verdadeira obsessão por brilhos e pela cor branca;
- No plano formal: as sinestesias, as imagens surpreendentes, a sonoridade das palavras, a predominância de substantivos e o emprego de maiúsculas, utilizadas com a finalidade de dar um valor absoluto a certos termos e o uso metáforas
Trechos de obras de Cruz e Sousa
INEFÁVEL
Nada há que me domine e que me vença
Quando a minha alma mudamente acorda... Ela rebenta em flor, ela transborda Nos alvoroços da emoção imensa. Sou como um Réu de celestial sentença, Condenado do Amor, que se recorda Do Amor e sempre no Silêncio borda De estrelas todo o céu em que erra e pensa. Claros, meus olhos tornam-se mais claros E tudo vejo dos encantos raros E de outras mais serenas madrugadas! Todas as vozes que procuro e chamo Ouço-as dentro de mim porque eu as amo Na minha alma volteando arrebatadas |
ANTÍFONA
Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
De luares, de neves, de neblinas! Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas... Incensos dos turíbulos das aras Formas do Amor, constelarmente puras, De Virgens e de Santas vaporosas... Brilhos errantes, mádidas frescuras E dolências de lírios e de rosas ... Indefiníveis músicas supremas, Harmonias da Cor e do Perfume... Horas do Ocaso, trêmulas, extremas, Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume... Visões, salmos e cânticos serenos, Surdinas de órgãos flébeis, soluçantes... Dormências de volúpicos venenos Sutis e suaves, mórbidos, radiantes ... Infinitos espíritos dispersos, Inefáveis, edênicos, aéreos, Fecundai o Mistério destes versos Com a chama ideal de todos os mistérios. Do Sonho as mais azuis diafaneidades Que fuljam, que na Estrofe se levantem E as emoções, todas as castidades Da alma do Verso, pelos versos cantem. Que o pólen de ouro dos mais finos astros Fecunde e inflame a rima clara e ardente... Que brilhe a correção dos alabastros Sonoramente, luminosamente. Forças originais, essência, graça De carnes de mulher, delicadezas... Todo esse eflúvio que por ondas passa Do Éter nas róseas e áureas correntezas... Cristais diluídos de clarões alacres, Desejos, vibrações, ânsias, alentos Fulvas vitórias, triunfamentos acres, Os mais estranhos estremecimentos... Flores negras do tédio e flores vagas De amores vãos, tantálicos, doentios... Fundas vermelhidões de velhas chagas Em sangue, abertas, escorrendo em rios... Tudo! vivo e nervoso e quente e forte, Nos turbilhões quiméricos do Sonho, Passe, cantando, ante o perfil medonho E o tropel cabalístico da Morte... |
SIDERAÇÕES
Para as Estrelas de cristais gelados
As ânsias e os desejos vão subindo, Galgando azuis e siderais noivados De nuvens brancas a amplidão vestindo... Num cortejo de cânticos alados Os arcanjos, as cítaras ferindo, Passam, das vestes nos troféus prateados, As asas de ouro finamente abrindo... Dos etéreos turíbulos de neve Claro incenso aromal, límpido e leve, Ondas nevoentas de Visões levanta... E as ânsias e os desejos infinitos Vão com os arcanjos formulando ritos Da Eternidade que nos Astros canta... |
O BOTÃO DE ROSA
O campo abrira o seio às expansões frementes
das árvores senis, dos galhos viridentes. Caía a tarde fresca Loira, gentil, vivaz como a canção tudesca. A iluminada esfera Calma, profunda, azul como um sonhar de virgem, Dava um brilho-cetim às verdes folhas d'hera. No ar uma harmonia avigorada e casta, No crânio uma vertigem Duma ideia viril, duma eloquência vasta. Tardes formosíssimas, Ó grande livro aberto aos geniais artistas, Como tanto alargais as crenças panteístas, Como tanto esplendeis e como sois riquíssimas. Quanta vitalidade indefinida, quanta, Na pequenina planta, No doce verde-mar dos trêmulos arbustos, Que misticismo, justos, Bebia a alma inteira ao devassar o arcano Das árvores titãs, das árvores fecundas Que tinham, como o oceano, Febris palpitações intérminas, profundas. Esplêndidas paisagens, Opunha o largo campo às vistas deslumbradas. As múrmuras ramagens, À luz serena e terna, à luz do sol - que espadas De fogo arremessava, em frêmitos nervosos, Pelo côncavo azul dos céus esplendorosos, Tinham falas de amor, segredos vacilantes Finos como os brilhantes. A música das aves Cortava o éter calmo, em notas multiformes, Límpidas e graves Que estouravam no ar em convulsões enormes. Aqui e além um rio Serpejava na sombra, em meio de um rochedo Áspero e sombrio. O olhar perscrutador, o grande olhar, sem medo E o espírito mudo, Como um herói gigante avassalavam tudo... Nuns madrigais risonhos Abria-se o país fantástico dos sonhos. Alavam-se os aromas Leais, inexauríveis Das largas e invisíveis Selváticas redomas. A seiva rebentava Em ondas - irrompia Na doce e maviosa e plácida alegria De uma ave que cantava, Dos belos roseirais Que ostentavam a flux as rosas virginais. E as jubilosas franças Dos arvoredos altos, Rígidos, atléticos, Derramavam no campo uns fluidos magnéticos Dumas vontades mansas. A doce alacridade ia explodindo aos saltos. E toda a natureza Robusta de saúde e estrênua de grandeza Libérrima e vital, Erguia-se pujante, audaz e redentora, No gérmen material da força criadora, Dentre a vida selvagem, mística, animal... Dos roseirais preciosos Nos renques primorosos, Numa linda roseira abria castamente, Como um sonho de luz numa cabeça ardente, O mais belo, o mais puro entre os botões de rosa. Tinha essa cor formosa, Tinha essa cor da aurora, Quando ensanguenta em rubro a vastidão sonora. Era um botão feliz Sorrindo para o Azul, zombando da matéria. Tinha o leve quebranto e a maciez etérea Que uma estrofe não diz. Das pétalas macias, Das pétalas sanguíneas, Doces como harmonias Brandas e velutíneas Uns perfumes sutis se espiralavam, raros, Pela mansão do Bem, pelos espaços claros. Perfumes excelentes, Perfumes dos melhores Perfumes bons de incógnitos Orientes. Matéria, não deplores O viver natural dos vegetais alegres; Eles são mais ditosos Que os nababos e reis nos seus coxins pomposos; E por mais que tu regres O matéria fatal, a tua vida inteira, No rigor da higiene; E por mais que a maneira Do teu grande existir, desse existir - perene De ironias e pasmos, Explosões de sarcasmos Tu completes, matéria - ó humanidade ousada Com a ciência altanada; E por mais que no século, Tu mergulhes a idéia, o prodigioso espéculo, Será sempre maior e exuberante e forte, Ó matéria fatal, Essa vida tão rica Que se corporifica Na valente coorte Do poder vegetal. Era um botão feliz, Cuia roseira, impávida, Ébria de aromas bons, ébria de orgulhos - ávida De completa fragrância, Palpitava com ânsia Desde a própria raiz. E entanto o sol tombara e triunfantemente Como um supremo Rubens, Jorrando à curvidade etérea do poente, O ouro e o escarlate, aprimorando as nuvens, Numa distribuição simpática de cores, De tintas e de luzes De galas e fulgores Rubros como o estourar dos férvidos obuses. O cérebro em nevrose, No pasmo que precede a augusta apoteose De uma excelsa visão perfeitamente bela, De uma excelsa visão em límpidos doceis, Exaltava o acabado artístico da Tela E o gosto dos pincéis. Caíam da amplidão em névoas singulares Os pálidos crepúsculos. Os fúlgidos altares Do homem primitivo - a relva, o prado, o campo Onde ele ia buscar a força de uma crença Que então lhe iluminasse a alma escura e densa, Morriam de clarões - os poderosos músculos Da fértil mãe de tudo - a natureza ingente - Deixavam de bater. - O olhar do pirilampo Oscilava, tremia - azul, fosforescente. As sombras vinham, vinham, Lembrando um batalhão d'espectros que caminham E a casta nitidez sintética das cousas Tomava a proporção das funerárias lousas. Completara-se então o mais extraordinário, O mais extravagante, Dos fenômenos todos: A noite. - Enfim descera a treva do Calvário, A treva que envolveu o Cristo agonizante. Coaxavam negras rãs nos charcos e nos lodos. A abóbada espaçosa, a física amplitude, Mostrava a profundez da angústia de ataúde De um operário pobre, Quando se escuta o dobre Amplíssimo e funéreo, Sinistro e compassado, Rolar pela mansão gloriosa do mistério, Assim com um soluço aflito, estrangulado. Devia ser, devia Por uma noite assim, Como esta noite igual, Que derramou Maria A lágrima da dor, - que o célebre Caim Sentiu dentro do crânio as convulsões do Mal. Mas o botão de rosa, Traído pelo estranho zéfiro da sorte, Rolou como uma cisma Intensa e luminosa Ardente e jovial em que a razão se abisma E foi cair, cair no pélago da morte, Em um dos mais raivosos, Em um dos mais atrozes Rios impetuosos, Cheios de surdas vozes, Sozinho, em desamparo, assim como um proscrito, Em meio à placidez Dos astros no infinito E à mesma irracional e fúnebre mudez. Depois e além de tudo, Além do grave aspecto inteiramente mudo, Ao tempo que morria O cândido botão - em um dos tantos galhos Virentes da roseira - alegre no ar se abria Um outro que ostentava as pétalas sedosas, As pétalas gracis de cores deliciosas, De cores ideais. As auras musicais Passavam-lhe de leve, Nos tímidos rumores, De um ósculo mais breve. E dentre a exposição das delicadas flores, Das rosas - o botão Aberto ultimamente às cúpulas austeras, Às plagas da esperança, a irmã das primaveras, Pendido um quase nada, esbelto na roseira, Mostrava aquela unção, A ínclita maneira De quem se glorifica Subindo ao céu azul da majestade pura, Da eterna exuberância, Da fonte sempre rica, Da esplêndida fartura Da luz imaculada - a egrégia substância Que faz das almas claras Pela fecundidade olímpica do amor, Magníficas searas, De onde se difunde à vida sempiterna, À vida essencial, à lei que nos governa, À idéia varonil do poeta sonhador. A arte especialmente, esse prodígio, atriz, Como o botão de rosa Tão meigo e tão feliz, Pode ser arrojada e brutalmente, ao pego, Na treva silenciosa, Onde o espírito vai, atordoado e cego, Cair, entre soluços, Como um colosso ideal tombado ao chão de bruços, Ou pode equilibrar-se em admirável base Estética e profunda, Assim, bem como o outro, à mais radiosa altura. Deves sondá-la bem nesta segunda fase. Precisas para isso uma alma mais fecunda. Precisas de sentir a artística loucura... |
AO DECÊNIO DE CASTRO ALVES
Quem sempre vence é o porvir!
No espadanar das espumas Que vão à praia saltar! Nos ecos das tempestades Da bela aurora ao raiar, Um brado enorme, profundo, Que faz tremer todo o mundo Se deixa logo sentir! É como o brado solene, Ingente, Celso, perene, É como o brado: - Porvir! Pergunta a onda: - Quem é?.., Responde o brado: - Sou eu! Eu sou a Fama, que venho C'roar o vate, o Criseu! Dormi, meu Deus, por dez anos E da natura os arcanos Não posso todos saber! Mas como ouvisse louvores De glória, gritos, clamores, Também vim louros trazer. Fatalidade! - Desgraça! Fatalidade, meu Deus! Passou-se um gênio tão cedo, Sumiu-se um astro nos céus! As catadupas d'idéias, De pensamento epopéias Rolaram todas no chão! Saindo a alma pra glória Bradou pra pátria - vitória! Já sou de vultos irmãos! Foi Deus que disse: - Poeta, Vem decantar a meus pés. Na eternidade há mais luz, Dão mais valor ao que és. Se lá na terra tens louros, Receberás cá tesouros De muitas glórias até! Terás a lira adorada C'o divo plectro afinada De Dante, Tasso e Garret! Então na terra sentiu-se UM grande acorde final! O belo vate brasílio Pendeu a fronte imortal! O negro espaço rasgou-se E aquele gênio internou-se Na sempiterna mansão. A sua fronte brilhava E o áureo livro apertava Sereno e ledo na mão... E o mundo então sobre os eixos Ouviu-se logo rodar! É que ele mesmo estremece A ver um vulto tombar. É que na queda dos entes Que são na vida potentes, Que têm nas veias ardor, Há cataclismos medonhos Que só sentimos em sonhos Mas que nos causam terror!... E o coração s'estortega E s'entibia a razão! No peito o sangue enregela E logo a história diz: - Não! Não chore a pátria esse filho, Se procurou outro trilho Também mais glória me deu! E quando os séculos passarem Se hão de tristes curvarem Enquanto alegre só eu?... Oh! Basta! Basta! Silêncio! Repousa, vate, nos Céus! Que muito além dos espaços Os cantos subam dos teus! Se nesta vida d'enganos Não são bastante os humanos Pra te render ovações! Perdoa os fracos, ó gênio, Que pra cantar teu decênio Somente Elmano ou Camões! |
BRAÇOS
Braços nervosos, brancas opulências,
brumais brancuras, fúlgidas brancuras, alvuras castas, virginais alvuras, latescências das raras latescências. As fascinantes, mórbidas dormências dos teus abraços de letais flexuras, produzem sensações de agres torturas, dos desejos as mornas florescências. Braços nervosos, tentadoras serpes que prendem, tetanizam como os herpes, dos delírios na trêmula coorte ... Pompa de carnes tépidas e flóreas, braços de estranhas correções marmóreas, abertos para o Amor e para a Morte! |
ENCARNAÇÃO
Carnais, sejam carnais tantos desejos,
carnais, sejam carnais tantos anseios, palpitações e frêmitos e enleios, das harpas da emoção tantos arpejos... Sonhos, que vão, por trêmulos adejos, à noite, ao luar, intumescer os seios láteos, de finos e azulados veios de virgindade, de pudor, de pejos... Sejam carnais todos os sonhos brumos de estranhos, vagos, estrelados rumos onde as Visões do amor dormem geladas... Sonhos, palpitações, desejos e ânsias formem, com claridades e fragrâncias, a encarnação das lívidas Amadas! |
VELHAS TRISTEZAS
Diluências de luz, velhas tristezas
das almas que morreram para a luta! Sois as sombras amadas de belezas hoje mais frias do que a pedra bruta. Murmúrios ncógnitos de gruta onde o Mar canta os salmos e as rudezas de obscuras religiões — voz impoluta de todas as titânicas grandezas. Passai, lembrando as sensações antigas, paixões que foram já dóceis amigas, na luz de eternos sóis glorificadas. Alegrias de há tempos! E hoje e agora, velhas tristezas que se vão embora no poente da Saudade amortalhadas! ... |
DANÇA DO VENTRE
Torva, febril, torcicolosamente,
numa espiral de elétricos volteios, na cabeça, nos olhos e nos seios fluíam-lhe os venenos da serpente. Ah! que agonia tenebrosa e ardente! que convulsões, que lúbricos anseios, quanta volúpia e quantos bamboleios, que brusco e horrível sensualismo quente. O ventre, em pinchos, empinava todo como réptil abjecto sobre o lodo, espolinhando e retorcido em fúria. Era a dança macabra e multiforme de um verme estranho, colossal, enorme, do demônio sangrento da luxúria! |
FLOR DO MAR
És da origem do mar, vens do secreto,
do estranho mar espumaroso e frio que põe rede de sonhos ao navio e o deixa balouçar, na vaga, inquieto. Possuis do mar o deslumbrante afeto, as dormências nervosas e o sombrio e torvo aspecto aterrador, bravio das ondas no atro e proceloso aspecto. Num fundo ideal de púrpuras e rosas surges das águas mucilaginosas como a lua entre a névoa dos espaços... Trazes na carne o eflorescer das vinhas, auroras, virgens músicas marinhas, acres aromas de algas e sargaços... |
DILACERAÇÕES
Ó carnes que eu amei sangrentamente,
ó volúpias letais e dolorosas, essências de heliotropos e de rosas de essência morna, tropical, dolente... Carnes, virgens e tépidas do Oriente do Sonho e das Estrelas fabulosas, carnes acerbas e maravilhosas, tentadoras do sol intensamente... Passai, dilaceradas pelos zelos, através dos profundos pesadelos que me apunhalam de mortais horrores... Passai, passai, desfeitas em tormentos, em lágrimas, em prantos, em lamentos em ais, em luto, em convulsões, em dores... |
SINFONIAS DO OCASO
Musselinosas como brumas diurnas
descem do ocaso as sombras harmoniosas, sombras veladas e musselinosas para as profundas solidões noturnas. Sacrários virgens, sacrossantas urnas, os céus resplendem de sidéreas rosas, da Lua e das Estrelas majestosas iluminando a escuridão das furnas. Ah! por estes sinfônicos ocasos a terra exala aromas de áureos vasos, incensos de turíbulos divinos. Os plenilúnios mórbidos vaporam ... E como que no Azul plangem e choram cítaras, harpas, bandolins, violinos ... |
ACROBATA DA DOR
Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado, nervoso, ri, num riso absurdo, inflado de uma ironia e de uma dor violenta. Da gargalhada atroz, sanguinolenta, agita os guizos, e convulsionado salta, gavroche, salta clown, varado pelo estertor dessa agonia lenta ... Pedem-se bis e um bis não se despreza! Vamos! retesa os músculos, retesa nessas macabras piruetas d'aço. . . E embora caias sobre o chão, fremente, afogado em teu sangue estuoso e quente, ri! Coração, tristíssimo palhaço. |
MÚSICA DA MORTE
A música da Morte, a nebulosa,
estranha, imensa música sombria, passa a tremer pela minh'alma e fria gela, fica a tremer, maravilhosa ... Onda nervosa e atroz, onda nervosa, letes sinistro e torvo da agonia, recresce a lancinante sinfonia sobe, numa volúpia dolorosa ... Sobe, recresce, tumultuando e amarga, tremenda, absurda, imponderada e larga, de pavores e trevas alucina ... E alucinando e em trevas delirando, como um ópio letal, vertiginando, os meus nervos, letárgica, fascina ... |
*
Além deste material acima, quero disponibilizar o livro OBRA COMPLETA VOL.1 - POESIA
http://www.youblisher.com/p/972590-OBRA-COMPLETA-VOL-1-CRUZ-E-SOUZA-ANTONIO-CABRAL-FILHO-2014/
***
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
domingo, 7 de setembro de 2014
sábado, 6 de setembro de 2014
sexta-feira, 5 de setembro de 2014
GONÇALVES DIAS, DESDE A CANÇÃO DO EXÍLIO * Antonio Cabral Filho - RJ
ANTOLOGIA MIL POEMAS PARA GONÇALVES DIAS
Parte 1
http://issuu.com/leovaz/docs/mil_poemas1a_-_parte_1
*
Parte 2
http://issuu.com/leovaz/docs/mil_poemas1b_-_parte_2
*
Informações Biográficas
http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=866&sid=183
*
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
EUCLIDES DA CUNHA, PRÓDIGO * Antonio Cabral Filho - Rj
ONDAS E OUTROS POEMAS ESPARSOS
Euclides da Cunha
*
Rio de Janeiro - 1883
14 anos de idade
Observação fundamental para explicar a série de absurdos que há nestas páginas.
*
ONDAS
Correi, rolai, correi _ ondas sonoras
Que à luz primeira, dum futuro incerto,
Erguestes-vos assim _ trêmulas, canoras,
Sobre o meu peito, um pélago deserto!
Correi... rolai _ que, audaz, por entre a treva
Do desânimo atroz _ enorme e densa _
Minh'alma um raio arroja e altiva eleva
Uma senda de luz que diz-se _ Crença!
Ide pois _ não importa que ilusória
Seja a esp'rança que em vós vejo fulgir...
_ Escalai o penhasco ásp'ro da Glória...
Rolai, rolai _ às plagas do Porvir!
[1883]
EU QUERO
Eu quero à doce luz dos vespertinos pálidos
Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas
_ Berços feitos de flor e de carvalhos cálidos
Onde a Poesia dorme, aos cantos das cascatas...
Eu quero aí viver _ o meu viver funéreo,
Eu quero aí chorar _ os tristes prantos meus...
E envolto o coração nas sombras do mistério,
Sentir minh'alma erguer-se entre a floresta de Deus!
Eu quero, da ingazeira erguida aos galhos úmidos,
Ouvir os cantos virgens da agreste patativa...
Da natureza eu quero, nos grandes seios túmidos,
Beber a Calma, o Bem, a Crença _ ardente a altiva.
Eu quero, eu quero ouvir o esbravejar das águas
Das asp'ras cachoeiras que irrompem do sertão...
E a minh'alma, cansada ao peso atroz das mágoas,
Silente adormecer no colo da so'idão...
[1883]
REBATE (Aos padres)
Sonnez! sonnez toujours, clairons de la pensée.
V. Hugo
Ó pálidos heróis! ó pálidos atletas _
Que co'a razão sondais a profundez dos Céus _
Enquanto do existir no vasto Saara enorme
Embalde procurais essa miragem _ Deus!...
A postos!... É chegado o dia do combate...
_ As frontes levantai do seio das so'idões _
E as nossas armas vede _ os cantos e as idéias,
E vede os arsenais _ cérebros e corações.
De pé... a hora soa... esplêndida a Ciência
Com esse elo _ a idéia _ as mentes prende à luz
E ateia já, fatal, a rubra lavareda
Que vai _ de pé heróis! _ queimar a vossa Cruz...
Vos pesa sobre a fronte um passado de sangue.
_ A vossa veste negra a muit'alma envolveu!
E tendes que pagar _ ah! dívidas tremendas!
Ao mundo: João Huss _ e à Ciência: Galileu.
Vós sois demais na terra!... e pesa, pesa muito
O lívido bordel das almas, das razões,
Sobre o dorso do globo _ sabeis _ é o Vaticano,
Do qual a sombra faz a noite das nações...
Depois... o século expira e... padres, precisamos
Da ciência c'o archote _ intérmino, fatal _
A vós incendiar _ aos báculos e às mitras,
A fim de iluminar-lhe o grande funeral!
Já é, já vai mui longa a vossa fria noite,
Que em frente à Consciência, soubestes, vis, tecer...
Oh treva colossal _ partir-te-á a luz...
Oh noite, arreda-te ante o novo alvorecer...
Oh vós que a flor da Crença _ esquálidos _ regais
Co'as lágrimas cruéis _ dos mártires letais _
Vós, que tentais abrir um santuário _ a cruz,
Da multidão no seio a golpe de punhais...
O passado trazeis de rastro a vossos pés!
Pois bem _ vai-se mudar o gemer em rugir _
E a lágrima em lava!... ó pálidos heróis,
De pé! que conquistar-vos vamos _ o porvir!...
[1883]
DANTÃO
Parece-me que o vejo iluminado.
Erguendo delirante a grande fronte
_ De um povo inteiro o fúlgido horizonte
Cheio de luz, de idéias constelado!
De seu crânio vulcão _ a rubra lava
Foi que gerou essa sublime aurora
_ Noventa e três _ e a levantou sonora
Na fronte audaz da populaça brava!
Olhando para a história _ um século e a lente
Que mostra-me o seu crânio resplandente
Do passado através o véu profundo...
Há muito que tombou, mas inquebrável
De sua voz o eco formidável
Estruge ainda na razão do mundo!
[1883]
MARAT
Foi a alma cruel das barricadas!
Misto e luz e lama!... se ele ria,
As púrpuras gelavam-se e rangia
Mais de um trono, se dava gargalhadas!...
Fanático da luz... porém seguia
Do crime as torvas, lívidas pisadas.
Armava, à noite, aos corações ciladas,
Batia o despotismo à luz do dia.
No seu cérebro tremente negrejavam
Os planos mais cruéis e cintilavam
As idéias mais bravas e brilhantes.
Há muito que um punhal gelou-lhe o seio...
Passou... deixou na história um rastro cheio
De lágrimas e luzes ofuscantes.
[1883]
ROBESPIERRE
Alma inquebrável _ bravo sonhador
De um fim brilhante, de um poder ingente,
De seu cérebro audaz, a luz ardente
É que gerava a treva do Terror!
Embuçado num lívido fulgor
Su'alma colossal, cruel, potente,
Rompe as idades, lúgubre, tremente,
Cheia de glórias, maldições e dor!
Há muito que, soberba, ess'alma ardida
Afogou-se cruenta e destemida
_ Num dilúvio de luz: Noventa e três...
Há muito já que emudeceu na história
Mas ainda hoje a sua atroz memória
É o pesado mais cruel dos reis!...
[1883]
SAINT-JUST
Un discours de Saint-Just donnait tout de suite un caractère terrible au débat...
Raffy: Procès de Louis XVI
Quando à tribuna ele se ergueu, rugindo,
_ Ao forte impulso das paixões audazes _
Ardente o lábio de terríveis frases
E a luz do gênio em seu olhar fulgindo,
A tirania estremeceu nas bases,
De um rei na fronte ressumou, pungindo,
Um suor de morte e um terror infindo
Gelou o seio aos cortesãos sequazes _
Uma alma nova ergueu-se em cada peito,
Brotou em cada peito uma esperança,
De um sono acordou, firme, o Direito _
E a Europa _ o mundo _ mais que o mundo, a França _
Sentiu numa hora sob o verbo seu
As comoções que em séculos não sofreu!...
[1883]
TRISTEZA
Ai! quanta vez _ pendida a fronte fria
_ Coberta cedo do cismar p'los rastros _
Deixo minh'alma, na asa da poesia,
Erguer-se ardente em divinal magia
À luminosa solidão dos astros!...
Infeliz mártir de fatais amores
Se ergue _ sublime _ em colossal anseio,
Do alto infinito aos siderais fulgores
E vai chorar de terra atroz as dores
Lá das estrelas no rosado seio!
............................................................................................
É nessa hora, companheiro, bela,
Que ela a tremer _ no seio da soedade
_ Fugindo à noite que a meu seio gela _
Bebe uma estrofe ardente em cada estrela,
Soluça em cada estrela uma saudade...
............................................................................................
É nessa hora, a deslizar, cansado,
Preso nas sombras de um presente escuro
E sem sequer um riso em lábio amado _
Que eu choro _ triste _ os risos do passado,
Que eu adivinho os prantos do futuro!...
[1883]
GONÇALVES DIAS (Ao pé do mar)
Seu eu pudesse cantar a grande história,
Que envolve ardente o teu viver brilhante!...
Filho dos trópicos que _ audaz gigante _
Desceste ao túmulo subindo à Glória!...
Teu túmulo colossal _ nest'hora eu fito _
Altivo, rugidor, sonoro, extenso _
O mar!... O mar!... Oh sim, teu crânio imenso _
Só podia conter-se _ no infinito...
E eu _ sou louco talvez _ mas quando, forte,
Em seu dorso resvala _ ardente _ Norte,
E ele espumante estruge, brada, grita
E em cada vaga uma canção estoura...
Eu _ creio ser tu'alma que, sonora,
Em seu seio sem fim _ brava _ palpita!...
[29 nov. 1883]
VERSO E REVERSO
Bem como o lótus que abre o seio perfumado
Ao doce olhar da estrela esquiva da amplidão
Assim também, um dia, a um doce olhar, domado,
Abri meu coração.
Ah! foi um astro puro e vívido, e fulgente,
Que à noite de minh'alma em luz veio romper
Aquele olhar divino, aquele olhar ardente
De uns olhos de mulher...
Escopro divinal _ tecido por auroras _
Bem dentro do meu peito, esplêndido, tombou,
E nele, altas canções e inspirações ardentes
Sublime burilou!
Foi ele que a minh'alma em noite atroz, cingida,
Ergueu do ideal, um dia, ao rútilo clarão.
Foi ele _ aquele olhar que à lágrima dorida
Deu-me um berço _ a Canção!
Foi ele que ensinou-me as minhas dores frias
Em estrofes ardentes, altivo, transformar!
Foi ele que ensinou-me a ouvir as melodias
Que brilham num olhar...
E são seus puros raios, seus raios róseos, santos
Envoltos sempre e sempre em tão divina cor,
As cordas divinais da lira de meus prantos,
D'harpa da minha dor!
Sim _ ele é quem me dá o desespero e a calma,
O ceticismo e a crença, a raiva, o mal e o bem,
Lançou-me muita luz no coração e na alma,
Mas lágrimas também!
É ele que, febril, a espadanar fulgores,
Negreja na minh'alma, imenso, vil, fatal!
É quem me sangra o peito _ e me mitiga as dores.
É bálsamo e é punhal.
A CRUZ DA ESTRADA
A meu amigo E. Jary Monteiro
Se vagares um dia nos sertões,
Como hei vagado _ pálido, dolente,
Em procura de Deus _ da fé ardente
Em meio das soidões...
Se fores, como eu fui, lá onde a flor
Tem do perfume a alma inebriante,
Lá onde brilha mais que o diamante
A lágrima da dor...
Se sondares da selva e entranha fria
Aonde dos cipós na relva extensa
Noss'alma embala a crença.
Se nos sertões vagares algum dia...
Companheiro! Hás de vê-la.
Hás de sentir a dor que ela derrama
Tendo um mistério, aos pés, de um negro drama,
Tendo na fronte o raio de uma estrela!...
Que vezes a encontrei!... Medrando calma
A Deus, entre os espaços
No desgraçado, ali tombado, a alma
Que tirita, quem sabe?, entre os seus braços.
Se a onça vê, lhe oculta a asp'ra, ferrenha
Garra, estremece, pára, fita-a, roja-se,
Recua trêmula, e fascinada arroja-se,
Entre as sombras da brenha!...
E a noite, a treva, quando aos céus ascende
E acorda lá a luz,
Sobre os seus braços frios, frios, nus,
_ Tecido de astros em brial estende...
Nos gélidos lugares
Em que ela se ergue, nunca o raio estala,
Nem pragueja o tufão... Hás de encontrá-la
Se acaso um dia nos sertões vagares...
[maio 1884]
COMPARAÇÃO
"Eu sou fraca e pequena..."
Tu me disseste um dia.
E em teu lábio sorria
Uma dor tão serena,
Que em mim se refletia
Amargamente amena,
A encantadora pena
Quem em teus olhos fulgia.
Mas esta mágoa, o tê-la
É um engano profundo.
Faze por esquecê-la:
Dos céus azuis ao fundo
É bem pequena a estrela...
E no entretanto _ é um mundo!
[1884]
STELLA
A Sebastião Alves
"Eu sou fraca e pequena..."
Tu me disseste um dia,
E em teu lábio sorria
Uma dor tão serena,
Que a tua doce pena
Em mim se refletia
_ Profundamente fria,
_ Amargamente amena!...
Mas essa mágoa, Stella,
De golpe tão profundo,
Faz tu por esquecê-la _
Das vastidões no fundo
_ É bem pequena a estrela _
No entanto _ a estrela é um mundo!...
AMOR ALGÉBRICO [Título anterior: "Álgebra lírica"]
Acabo de estudar _ da ciência fria e vã,
O gelo, o gelo atroz me gela ainda a mente,
Acabo de arrancar a fronte minha ardente
Das páginas cruéis de um livro de Bertrand.
Bem triste e bem cruel decerto foi o ente
Que este Saara atroz _ sem aura, sem manhã,
A Álgebra criou _ a mente, a alma mais sã
Nela vacila e cai, sem um sonho virente.
Acabo de estudar e pálido, cansado,
Dumas dez equações os véus hei arrancado,
Estou cheio de 'spleen', cheio de tédio e giz.
É tempo, é tempo pois de, trêmulo e amoroso,
Ir dela descansar no seio venturoso
E achar do seu olhar o luminoso X.
[1884]
A FLOR DO CÁRCERE [Publicado na "Revista da Família Acadêmica", número 1, Rio de Janeiro, novembro de 1887.]
Nascera ali _ no limo viridente
Dos muros da prisão _ como uma esmola
Da natureza a um coração que estiola _
Aquela flor imaculada e olente...
E 'ele' que fora um bruto, e vil descrente,
Quanta vez, numa prece, ungido, cola
O lábio seco, na úmida corola
Daquela flor alvíssima e silente!...
E _ ele _ que sofre e para a dor existe _
Quantas vezes no peito o pranto estanca!...
Quantas vezes na veia a febre acalma,
Fitando aquela flor tão pura e triste!...
_ Aquela estrela perfumada e branca,
Que cintila na noite de sua alma...
[1884?]
ÚLTIMO CANTO
I
Amigo!... estas canções, estas filhas selvagens
Das montanhas, da luz, dos céus e das miragens
Sem arte e sem fulgor, são um sonoro caos
De lágrimas e luz, de plectros bons e maus...
Que ruge no meu peito e no meu peito chora,
Sem um 'fiat' de amor, sem a divina aurora
De um olhar de mulher...
perfeitamente o vês,
Não sei metrificar, medir, separar pés...
_ Pois um beijo tem leis? a um canto um núm'ro guia?
Pode moldar-se uma alma às leis da geometria?
Não tenho ainda vinte anos.
E sou um velho poeta... a dor e os desenganos
Sagraram-me mui cedo, a minha juventude
É como uma manhã de Londres _ fria e rude...
Filho lá dos sertões nas múrmuras florestas,
Nesses berços de luz, de aromas, de giestas _
Onde a poesia dorme ao canto das cachoeiras,
Eu me embrenhava só... as auras forasteiras
Me segredavam baixo os cantos do mistério
E a floresta sombria era como um saltério,
Em cujas vibrações minh'alma _ ébria _ bebia
Esse licor de luz e cantos _ a Poesia...
Mas, cedo, como um elo atroz de luz e pó
Um sepulcro ligara a Deus minh'alma... e só
Selvagem, triste e altivo, eu enfrentei o mundo,
Fitei-o, então, senti de meu cérebro no fundo
Rolar, iluminando a alma e o coração,
Com a lágrima primeira _ a primeira canção...
Cantei _ porque sofria _ e, amigo, no entretanto,
Sofro hoje _ porque canto.
Já vês, portanto, em mim esta arte de cantar
É um modo de sofrer , é um meio de gozar...
Quem há que meça aí de uma lágrima o brilho?
Pois erra-se sofrendo?...
Eu nunca li Castilho.
Detesto francamente esses mestres cruéis
Que esmagam uma idéia sob quebrados pés...
Que vestem co'um soneto esplêndido, sem erro,
Um pensamento torto, encarquilhado e perro,
Como um correto fraque às costas de um corcunda!...
Oh! sim, quando a paixão o nosso ser inunda,
E ferve-nos na artéria, e canta-nos no peito,
_ Como dos ribeirões o borbulhoso leito,
Parar _ é sublevar _
Medir _ é deformar!
Por isso amo a Musset e jamais li Boileau.
II
Esse arquiteto audaz do pensamento _ Hugo _
Jamais sói refrear o seu verso terrível,
Veloce como a luz, como o raio, incoercível!
Se a lima o toca, ardente, audaz como um corcel,
Às esporas revel,
Na página palpita e ferve e freme e estoura
Como um raio a vibrar no seio de uma aurora...
Que lime-se num verso uma cadência má,
Que p'los dedos se contem as sílabas _ vá lá!
Mas que um tipão qualquer _ como muitos que eu vejo _
Espiche, estique e encolha a tal hora e sem pejo
Um desgraçado verso, e, após tanto medir,
Torcer, brunir, sovar, limar, polir, polir,
No-lo venha a trazer, às pobres das ovelhas,
Como um casto 'bijou', feito de sons e luz,
Isto revolta e amola...
Mas veja ao que conduz
O vago rabiscar de uma pena sem norte:
Falava-te de Deus, de mim, da estranha sorte
Que aniila a poesia _ e acabo num jogral,
Num lorpa, num boçal,
Que nos recebe a pés, e faz do amor uma arte.
Deixemo-lo de parte.
III
Escuta-me, eu teria um imenso prazer
Se podendo domar, curvar, forçar, vencer
O cér'bro e o coração, fosse este último canto
O fim de meu sonhar, de meu cantar, porquanto...
RIMAS
Ontem _ quando, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão _ louca _ suprema
E no teu lábio, essa rósea algema,
A minha vida _ gélida _ prendias...
Eu meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema...
_ Como engastar tua alma num poema?
E eu não chorava quanto tu te rias...
Hoje, que vivo desse amor ansioso
E és minha _ és minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste sendo tão ditoso!
E tremo e choro _ pressentindo _ forte _,
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida _ que é a morte...
[1885]
SONETO
Dedicado a Anna da Cunha
"Ontem, quanto, soberba, escarnecias
Dessa minha paixão, louca, suprema,
E no teu lábio, essa rosa da algema,
A minha vida, gélida prendias...
Eu meditava em loucas utopias,
Tentava resolver grave problema...
_ Como engastar tua alma num poema?
E eu não chorava quando tu te rias...
Hoje, que vives desse amor ansioso
E és minha, só minha, extraordinária sorte,
Hoje eu sou triste, sendo tão ditoso!
E tremo e choro, pressentindo, forte
Vibrar, dentro em meu peito, fervoroso,
Esse excesso de vida, que é a morte..."
[10 set. 1890]
A RIR
Eu já não creio mais... sombrio e calmo enfrento
_ O lábio ermo da prece, o peito ermo da crença _
A estrela _ rubra e imensa
De meu destino atroz, aspérrimo e sangrento!...
E embora sobre mim flamívoma suspensa
Em minh'alma os clarões fatais ela concentre,
Eu suporto-lhe bem o flamejante baque
_ Altivamente calmo _ entrincheirando-me entre
Uma canção de Byron
E um cálix de 'cognac'...
_ Não há dor que resista ao som de uma risada! _
Depois, se me exarcebo!
e tremo e choro erguendo a prece à alma magoada,
Mais me dói essa dor, mais esse mal é acerbo!
Assim _ eu resolvi, indiferente e frio
Cheio de orgulho e 'spleen' _ como um banqueiro inglês,
Sepultar na ironia o pranto meu sombrio...
Por isso quando atroz na triste palidez
De minha fronte paira amarga idéia _ eu rio!...
E quando pouco a pouco
Essa idéia me abate e vence-me alterosa,
De amargores repleta _ eu rio como um louco...
E se ela ainda dói mais, e forte e tenebrosa
Soe ao último ideal da minh'alma anilar,
E vencer-me de todo
Então _ eu me ergo mais _ e _ desvairado o olhar
_ Divinamente doudo _
Eu rio, rio muito _ até chorar!...
[1886]
FAZENDO VERSOS
A Moreira Guimarães
Poeta que calcula quando escreve
..................................................
Que vá poetizar para os conventos.
G. Magalhães
Colegas. Essas canções _ essas filhas selvagens
Das montanhas, da luz, dos céus e das miragens
_ Sem arte e sem fulgor _ são um sonoro caos
De lágrimas e luz, de plectros bons e maus
Que ruge no meu peito e no meu peito chora;
Sem um 'fiat' de amor, sem a divina aurora
De uns olhos de mulher...
Mas tenho vinte e um anos
E sou um velho poeta _ a dor e os desenganos
Sagraram-me mui cedo; a minha juventude
É, como uma manhã de Londres _ fria e rude!
_ Filho lá dos sertões _ nas múrmuras florestas,
Nesses berços de luz, de aromas e giestas
Aonde a poesia dorme ao canto das cachoeiras,
Eu me embrenhava só... as auras forasteiras
Me segredavam baixo as dulias do mistério
E a floresta ruidosa era como um saltério
De cujas vibrações meu coração vivia
Bebendo esse licor de luzes _ a Poesia!...
Mui cedo _ como um elo atroz de luz e pó
Um sepulcro ligara a Deus minh'alma... só,
_ Selvagem, triste e altivo _ eu enfrentei o mundo
Fitei-o e então senti _ de meu cérebro no fundo
Rolar _ iluminando a alma e o coração _
Com a lágrima primeira, a primeira canção!...
Cantei _ porque sofria _ e, veja que no entanto
Sofro hoje _ porque canto!...
Já vês, portanto: em mim _ isso de versejar _
É um modo de sofrer e um meio de gozar
E nada mais, palavra!...
...Eu nunca li Castilho _
Detesto francamente estes mestres cruéis
Que esmagam uma idéia entre 'quebrados pés',
Que vestem com um soneto _ esplêndido, sem erro _
Um pensamento torto, encarquilhado e perro _
_ Como um correto 'frac' ao dorso de um corcunda!...
Oh!... sim _ quando a paixão o nosso ser inunda
E ferve-nos na artéria e canta-nos no peito
_ Como dos ribeirões o estrepitante leito _
Parar _ é sublevar
_ Medir _ é deformar _
Por isso amo a Musset e jamais li Boileau!...
Esse arquiteto audaz do pensamento _ Hugo _
Jamais soe refrear o seu verso invencível
Veloz, mais do que a luz _ como o raio _ incoercível!
Se a lima o toca _ ardente, audaz como um corcel
Às esporas revel
Na página palpita _ e corre e brilha e estoura
Como um raio a vibrar no seio de uma aurora!...
Que a crítica burguesa e honesta me perdoe:
Bem sei que isso faz mal _ sei bem que isto lhe dói:
Que ela me estigmatise a fronte e em raiva ingente
Arroje sobre mim a pecha: decadente!...
E vede-me calcar do Pindo as áureas trilhas...
Colega!... hão de ser sempre essas canções estranhas
Umas selvagens filhas
Das miragens, dos céus, da luz e das montanhas!...
CRISTO
[Publicado na "Revista da Família Acadêmica", Rio de Janeiro, jul. 1888. Dedicatória posterior.]
A Filinto d'Almeida
Era uma idade atroz... forte e grandiosa.
Levantando altivíssima a alterosa
E fulgurante coma
Nas ruínas das nações se erguia Roma...
Trágica e má _ das raças quebradas,
Das velhas raças de remota história,
Afogando a existência, a força e a glória
_ Num dilúvio flamívomo de espadas! _
Não havia aplacá-la, nem dos perros
A queixa vil, nem dos heróis nos ferros;
Embalde o pranto acerbo
Sufocando, Mitríades, soberbo,
Se erguera na Ásia aos rígidos embates
De férvidas paixões para, possante,
Lançar um trono no bulcão troante
Do torvelinho horrível dos combates!
Tombara Filopoeme _ altivo o aspeito,
Concentrando no velho e frio peito
Todo o vigor guerreiro,
Todo o heroísmo de um país inteiro...
_ E o que passou então foi sublimado _
A Grécia, que era morta, morta e escrava,
Transmudou-se num túmulo _ heróica e brava _
Para guardar seu último soldado...
No Egito, o horror dos dramas lutuosos...
Rotos, sombrios, pávidos, raivosos,
Os últimos heróis
Sofriam pela pátria... oh! dor atroz _
Oh! dor fatal que o coração adstringes!
E passavam, cingindo as velhas clâmides,
_ Entre a sombra funérea das pirâmides
E o olhar petrificado das esfinges!
A Ibéria exangue _ nem sequer o insano
Louco gemer do eterno amante _ o Oceano
Ouvia, lhe atirando às plantas frias
Grandes canções _ vestidas de ardentias...
Amante imenso, de um amor profundo,
Que mais tarde, grandioso, para erguê-la,
_ Não podendo engastá-la numa estrela _
Lançou-lhe aos pés _ um mundo!
Nos corações as recalcadas penas
Doíam sem um só gemido... apenas
Numa loucura brava.
O Parta palmo a palmo recuava;
No terreno sagrado de seus pais;
Caía _ como o raio _ fulminando,
E morria _ as espadas agitando
Como sabem morrer os imortais!
Mas de onde vinha esse fatal domínio?
Lançai à história o olhar. Vede:
Um triclínio.
Das taças arrebenta
Formidolosa a embriaguez sangrenta...
Um truão se ergue: em seu olhar cintila
A febre, às vozes doces de um saltério,
Ébrio e trôpego dança... Ei-lo Tibério...
_Tibério cambaleia _ e o mundo oscila!
Foi nessa idade atroz e má, repleta
De crimes, que Jesus, incruento atleta _
Ergueu como uma aurora,
Por entre a multidão, a fronte loura...
E nova vida palpitou na terra;
Vacilaram os ferros sanguinários
Nas manoplas dos rudes legionários;
_ Em frente à paz estremeceu _ a guerra...
Dissolveram-se em prantos os ressábios
Das concentradas dores, e nos lábios
Sublime, pairou esse
Bafejo ardente da nossa alma... a prece...
E livre dessas noites que se somem
Ante os fulgores da razão de um justo,
O mundo inteiro se soerguendo a custo,
Respirava p'la boca de um só homem!
Da antiga idade, os deuses combalidos
Oscilaram, quebrados, derruídos,
Ante o clarão brilhante
Daquela consciência rutilante...
E, cobardes, num círculo de lanças,
Cheios de um grande espanto, vacilaram
Os déspotas, torvados... e recuaram
Ante um homem cercado de crianças...
E quando ele caiu... o mundo antigo,
O seu ingrato e trágico inimigo,
_ Alucinado e insano _
Deslumbrou-se ante um quadro sobre-humano:
Aureolava-o ignota claridade...
E aquele morto... frio, macerado,
Tendo no lábio um riso ensangüentado,
Na espádua roxa _ erguia a Humanidade...
[1887?]
CALABAR
[Título anterior: OS HOLANDESES]
(Fragmento)
Calabar _ só. Queda-se pensativo. Surge de um recanto do forte.
Fr. Manuel Salvador
FR. MANUEL _ (à parte) ... Não percamos esta hora.
(Alto, a Calabar)
Pois acreditas tu que é um leão?
(Calabar volta-se, surpreso)
Tu és
Um cachorro açulado às goelas do holandês!
CALABAR _ Padre! de onde surgiste? a que vens? e que queres?
E que palavra vil é esta com que feres
A quem sempre submisso ouviu a tua voz?
FR. MANUEL _ Escuta-me, meu filho... Eu precisava, a sós,
Longamente tratar contigo acerca de árdua
Empresa; e a situação em que te vês, aguardo-a
De muito impaciente...
CALABAR _ Tu achas então que é
Própria a divagações esta hora _ quando a fé
Que propagas e o Deus, o próprio Deus que adoras
Tem em roda seis mil espadas vencedoras
Do herético holandês... Tu queres gracejar
Ante o perigo, padre!?
FR. MANUEL _ (tranqüilo) _ Escuta, Calabar:
Sabes o que traduz este hábito sombrio?
É o túmulo de uma alma! Aqui dentro há mais frio,
Mais sombra e mais horror do que nas solidões
Dos cemitérios... Ouve: Há fundas aflições
De uma agonia atroz, no ser entregue ao duro
Martírio de arrastar este farrapo escuro.
Sabes tu por acaso avaliar o pavor
De alguém que arrasta em vida o próprio túmulo, e a dor
De quem cego da vida às galas soberanas
É um morto a vagar entre as paixões humanas,
Trágico e só 'perinde ao cadáver', só
Feito uma sombra vã e desprezível? Oh!
Se podes calcular a espantosa tristeza
De alguém em frente ao qual, imota, a natureza
Não tem voz, nem luz... Se podes idear
Sequer a ânsia de alguém destinado a escutar,
_ Monótona, a bater, a bater agoureira,
A mesma hora a bater durante a vida inteira!
Se podes avaliar tão mísero viver
E sofrimentos tais, deves compreender
Que eu não sei rir sequer, que eu não gracejo nunca!
[1887?]
CÉZARES E CZARES
Os Cézares cruéis,
Quando deixam da história a cena gigantéia,
Conservam geralmente a linha dos atores,
Que embora tenham tido espantosos papéis,
Nos quais dura se alteia
A desgraça espalhando angústias e terrores,
Querem que os acompanhe o aplauso da platéia...
Mário penetra em Roma
Pela sétima vez erguido ao consulado,
Na alma robusta o héróis traz sinistros desejos
De vingança, fatais anelos que não doma...
Sombrio, alucinado,
Não lhe quebram o assomo os eternos lampejos
Dos prélios que travou nas lutas do passado:
E a espada que fulgiu nas sombras da Germânia
Arranca-a em plena insânia,
Vibrando-a doidamente _ e doidamente a enterra
Em pleno coração da sua grande terra...
Mas vê-de-o no desterro...
_ Que imensa solidão! que pavoroso estrago! _
Velho, proscrito e só!... ninguém à dor lhe assiste.
Só lhe é dado rever o alcantilado cerro
O vulto enorme e vago
Da pátria, além do mar... Dizei-me o que mais triste:
As ruínas daquela alma ou as ruínas de Cartago.
César trucida a Gália
E a Síria e o Egito e a Ibéria... À indômita ambição
Não lhe basta, porém, o império vitorioso...
Desvaira: vai buscar nos campos de Farsália
Os sonhos de Pompeu; e em Tapsos _ glorioso _
A energia moral austera de Catão.
Triunfou! É feliz! Que importam dissabores
Dos rudes lutadores,
Feitos comparsas vis desses terríveis dramas,
Se Roma está em festa... e a Gália inteira em chamas!
No 'forum', certo dia:
'Tu quoque, Brute!' Estranho, este grito se ergueu.
Tumultua o recinto ante o ato formidável:
_ César ferido, o peito em sangue e a fronte fria
Vacila, mas o seu
Aprumo não destrói. Cai, num tombo impecável,
Tragicamente, aos pés das estátuas de Pompeu!
Ivã subjuga e prende
Ao carro triunfador os povos de dois mundos.
Reina, impera _ é o Czar! Sua terrível glória
Do pólo enregelado ao Cáucaso se estende.
Os Calmucos imundos
Cercam-lhe o trono e a vida. E ler-se sua história
É ouvir-se a todo instante os rumores profundos,
Que irrompem do tropel dos esquadrões bravios
Dos tártaros sombrios...
_ Imenso tropear que afoga os gritos cavos
E as doidas maldições de cem milhões de escravos!
ESTÂNCIAS
[Publicado em "Revista da Família Acadêmica", Rio de Janeiro, out. 1888.]
XII
Les beaux yeux sauvent les beaux vers!...
V. Hugo
Meu pobre coração tão cedo aniquilado
Na ardência das paixões _ ó pálida criança _
Revive à doce luz do teu olhar magoado
E cheio de ilusões, de crenças e esperança
Faz o castelo ideal das louras utopias
_ Com os brilhos desse olhar e o ouro de tua trança! _
*
Quando sobre as sombrias
Ondas _ vasto o luar esplêndido se espalma
De todo o seu negror, arranca as ardentias
De teus olhos assim à luz divina e calma
Dimanam _ cintilando _ as ilusões e os versos
Das sombras de minh'alma...
E sonho e canto e rio e me deslumbro... imersos
_ No místico luar que sobre mim derramas _
Fulguram como sóis meus ideais dispersos!...
Fulguram como sóis _ entre sonoras flamas
Partindo no meu peito a tétrica penumbra
E o silêncio fatal de dolorosos dramas...
E tudo hoje ante mim tem luz, tem voz _ deslumbra _
Pois _ tal como dos sóis a claridade instila
De cada um ideal _ uma canção ressumbra _
E em cada uma canção _ o teu olhar cintila...
[São Paulo, jan. 1888]
OS LÊMURES
Ó minha musa _ imaculada e santa!
Deixa um momento os sonhos teus benditos,
Despe os teus véus de noiva do Ideal.
Deixa-os, despe-os e canta
Sobre as ruínas trágicas do mal
As almas arruinadas dos malditos!...
[188-]
MUNDOS EXTINTOS
São tão remotas as estrelas que, apesar da vertiginosa velocidade da luz, elas se apagam, e continuam a brilhar durante séculos.
Morrem os mundos... Silenciosa e escura,
Eterna noite cinge-os. Mudas, frias,
Nas luminosas solidões da altura
Erguem-se, assim, necrópoles sombrias...
Mas para nós, di-lo a ciência, além perdura
A vida, e expande as rútilas magias...
Pelos séculos em fora a luz fulgura
Traçando-lhes as órbitas vazias.
Meus ideais! extinta claridade _
Mortos, rompeis, fantásticos e insanos
Da minh'alma a revolta imensidade...
E sois ainda todos os enganos
E toda a luz, e toda a mocidade
Desta velhice trágica aos vinte anos...
[1886]
"HÁ NOS TEUS OLHOS ESCUROS..."
Há nos teus olhos escuros
Tantas centelhas, que ao vê-las
Penso na treva e nos brilhos
Das noites cheias de estrelas...
Penso em cousas singulares,
Indagando entre delírios:
Por que é que os céus inda brilham?
Por que não se apaga Sírius?
[1888]
LIRISMO A DISPARADA
Eu sou por certo um ente admirável,
A quem nenhuma penitência salva.
Não tiro o meu chapéu à Divindade...
"E dizem que perdi a Estrela-d'alva"...
E tão viciado que ainda hoje, à noite,
Um pelotão de serafins risonhos,
Em pleno 'boulevard' da Via-Láctea,
Prendeu-me porque eu estava ébrio... de sonhos!
Escândalo no céu. Os santos todos,
Perdendo as composturas consagradas,
Atiravam-me estrelas, como pedras,
E riam-se a bandeiras despregadas.
Um desacato escandaloso... e como
O Supremo Fiscal, nessa emergência,
Não conteve os seráficos garotos,
Denunciei à polícia a Providência.
Fiz bem. A rixa é velha. Há muito tempo
Que eu, o Voltaire e o Comte nem o intento
Podemos ter de passear à noite
Na grande praça azul do Firmamento.
Se o fazemos, apagam-se as lanternas
Dos céus, num pronto e momentâneo eclipse,
E vemo-nos nas trevas, entre os coices
Da besta divinal do Apocalipse!
Não vou mais lá, por isso... Mas que importa...
Por que falar nesses sucessos tristes?
Trancam-me os céus: eu tenho o teu olhar...
Nem me faz falta Deus _ pois tu existes!
D. QUIXOTE
Assim à aldeia volta o da "triste figura"
Ao tardo caminhar do Rocinante lento:
No arcaboiço dobrado _ um grande desalento,
No entrestecido olhar _ uns laivos de loucura...
Sonhos, a glória, o amor, a alcantilada altura
Do ideal e da Fé, tudo isto num momento
A rolar, a rolar, num desmoronamento,
Entre os risos boçais do Bacharel e o Cura.
Mas, certo, ó D. Quixote, ainda foi clemente
Contigo a sorte, ao pôr nesse teu cérebro oco
O brilho da Ilusão do espírito doente;
Porque há cousa pior: é o ir-se a pouco e pouco
Perdendo, qual perdeste, um ideal ardente
E ardentes ilusões _ e não se ficar louco!
[1890]
"AS CATAS"
A Coelho Neto
Que outros adorem vastas capitais
Aonde, deslumbrantes,
Da Indústria e da Ciência as triunfais
Vozes se erguem em mágico concerto;
Eu, não; eu prefiro antes
As catas desoladoras do deserto,
Cheias de sombra, de silêncio e paz...
Eu sei que à alma moderna _ alta e feliz,
E grande, e iluminada,
Não pode sofrear estes febris
Assomos curiosos que a endoidecem
De ir ver, emocionada,
Os milagres da Indústria em Gand ou Essen,
E a apoteose do século _ em Paris!
Não invejo, porém, os que se vão
Buscando, mar em fora,
De outras terras a esplêndida visão...
Fazem-me mal as multidões ruidosas
E eu procuro, nesta hora,
Cidades que se ocultam majestosas
Na tristeza solene do sertão.
Cidades ante as quais são como anãs
As Londres, extensíssimas
E as Babilônias, Bagdás pagãs;
Tão colossais, tão cheias de grandeza,
Nas construções amplíssimas,
Que as contemplando eu penso na rudeza
De uma raça já morta de titãs.
E abandonadas... no entretanto, quem
As observa, no extremo
Dos horizontes afastados, tem
O religioso espanto e o extraordinário
Êxtase supremo
De um muçulmano austero ou de um templário
Diante de Meca ou de Jerusalém.
Divisa então soberbos coliseus,
Templos de forma rara _
Amplas mesquitas, vastos mausoléus,
E góticas igrejas tão imensas
E tão frágeis que para
Compreendê-las, cremo-las suspensas
Por ignota atração vinda dos céus.
No entanto, atulmutuaram multidões
Dentro delas outrora;
E ao ritmo de esplêndidas canções
Levantou-lhes os muros triunfantes
Heróica e sonhadora,
A coorte febril dos Bandeirantes,
Nas marchas triunfais pelos sertões.
Mas passaram _ e o sol que tremeu
A seus passos, deserto,
Revolto e infinito, e como um mausoléu
Imenso que pelo sertão se estende...
Calcando-o, sentis perto,
Um deslizar sinistro de duende:
O fantasma de um povo que morreu.
Viajantes que rápidos passais
Pelas serras de Minas,
Vindos de fulgurantes capitais,
Evitai as necrópoles sagradas,
Passai longe das ruínas,
Passai longe das Catas desoladas
Cheias de sombra, de tristeza e paz...
Campanha, 1895
FRAGMENTOS DE POESIA
[Publicado em "O Imparcial", Rio de Janeiro, 20 jan. 1929]
A Coelho Neto
De um lado o Atlântico e do outro lado as serras
Longas, indefinidas, perlongando-o;
E aquém das serras nos planaltos largos,
Um mundo ainda ignoto! Os rios longos
Recortam-na profusos, ora calmos,
Volvendo a correnteza imperceptível,
Ora cheios, rolando no...
O soberbo estridor das cachoeiras...
As grandes matas verde-negras vastas
... de frutos e de flores
Desafiam do azual as pompas todas.
Que terra encantadora... Mas enquanto
O meu olhar se desatava livre
No desafogo dos espaços amplos
O ridículo mortal tolhia o passo
E imóvel sobre o cerro em que jazíamos
Abarcava num gesto o espaço todo:
Conforme vês 'a terra é longa e grossa'
E atestam na pujança com que surgem
A riqueza de um solo incomparável
Em que o cultivador sem mais resguardos
Com algumas foiçadas e um bocejo
Garante o pão à prole e pode dar-se
Ao culto sacrossanto da Preguiça.
E nada o preocupa: a fauna é frágil,
Traiçoeira e cobarde; não há tigres,
Régios tigres listrados; nem leões,
Nada das formas colossais e rudes
Feitas para guardarem, consorciadas,
A feridade e a força... Tudo médio
Tudo uma redução do que há alhures
O elefante é tapir tardo e medroso
O tigre de Bengala é a suçuarana
Cobarde e fugitiva; o orango bruto
É o sagüi famíneo e pulha; e a capivara
O hipopótamo esquivo das lagoas...
E tudo é médio... a natureza toda
Numa mediania inalterável...
As mesmas forças naturais que além
Rompem em cataclismas formidáveis
Criando a Geologia traço estranho
De um drama esquiliano, aqui, é calma.
Não há vulcões e os mesmos terremotos
Que subvertem cidades noutras zonas
Amortecem-se inúteis, embatendo
Na massa de granito desta terra...
As montanhas _ bem vês _ não têm altura
As maiores são serros noutras partes
Achatam-se alongando-se, alongando-se
Se o arrojo de um píncaro que enteste
Com o menor dos píncaros nos Alpes...
Nas florestas enormes não procures
O cedro colossal ou o carvalho
Ou o plátano altivo que alevanta
Às nuvens uma vida de mil anos,
Não lhe permite o surto, o afago, atroz
Terrível das lianas, das aráceas,
Que os apertam, ... e derrubam
De sorte que as florestas como os rios
Como a montanha, como a terra toda,
São grandes só por um estiramento!... Disse e eu vi pela primeira vez
O clarão ideal de uma ironia
Dando-lhe ao rosto hílar um tom mais sério.
E prosseguiu:
Aqui, o grande é o chato!
Tudo num plano horizontal é enorme
Tudo num plano vertical é mínimo
A pedra, o vegetal, e o... e o homem...
E repentinamente aquele rosto
Onde um ricto sardônico pusera
A lonha ideal desse sarcasmo ríspido
Que é a mágoa triunfante dos eleitos
Pois é a alegria trágica dos fortes,
Aquele rosto desmanchou-se todo
No desmandibulado destempero
De uma risada à-toa.
Mal a ouvi
Prendeu-me o olhar um quadro nunca visto:
Numa clareira, em frente, repontavam
Uns homens singulares... que vestidos!
Nem clâmides, nem togas, nem
Consorciando a candura dos arminhos
Com o varonil das púrpuras brilhantes.
Pretos. De preto todos no afogado
Das vestes ajustadas pelos membros...
Vinham calmos; nem gestos sacudidos
Nem vozes imperiosas... Passos lentos.
Lorena, 1896
PÁGINA VAZIA
Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo, inda na mente,
Muitas cenas do drama comovente
De guerra despiedada e aterradora.
Certo não pode ter uma sonora
Estrofe ou canto ou ditirambo ardente
Que possa figurar dignamente
Em vosso álbum gentil, minha senhora.
E quando, com fidalga gentileza
Cedestes-me esta página, a nobreza
De nossa alma iludiu-vos, não previstes
Que quem mais tarde, nesta folha lesse
Perguntaria: "Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão tristes?"
1897
DEDICATÓRIA A LÚCIO DE MENDONÇA
Em falta de um 'postkarte', iluminura
Que enquadre do que penso ou sinto a imagem,
Em relevo, na artística moldura
De um trecho fugitivo de paisagem _
Aí vai, para saudá-lo no remanso
De um lar, onde terá digno conchego,
Este caboclo, este jagunço manso
_ Misto de celta, de tapuia e grego...
1903
DEDICATÓRIA A COELHO NETO
Felizmente
Esta fisionomia,
De onde ressalta a ríspida expressão
Da face de um tapuia, espantadíssima,
Hás de achá-la belíssima
Porque saberá ver, nitidamente,
Com os raios X de tua fantasia,
O que os outros não vêem: um coração.
1903
O PARAÍSO DOS MEDÍOCRES
(Uma página que Dante destruiu)
Perto do inferno existe uma paragem
Onde cai monótona e ressoa
Uma torrente enregelada e dura
Sulcando a pedra na erosão eterna.
Fomos por ela em fora, lento e lento
Vacilantes subindo. Mas no alto
Precisamente quando a minha vista
Divisava dos céus tão anelados
Um fragmento longínquo, vi-me só.
Inopinadamente se evadira
O bucólico guia que me dera
O clarão de sua alma incomparável,
Entre as sombras dos giros infernais.
Então alucinado, o peito opresso,
A fronte em fogo, onde batiam ríspidas
As lufadas friíssimas do abismo,
Atirei entre os ecos apagados
Das vozes do demônio uma súplica:
Virgílio. E estas três sílabas belíssimas
Rolaram longamente no silêncio
Como se no silêncio desabasse
Uma falange de cristais partidos.
Mas não as repeti: de uma vereda
À esquerda, junto ao círculo Judas,
Vi que surgiu uma figura estranha,
Homem ou gênio, e todo desgracioso
Lembrava um sambenito: a fronte nua
Escampada e brunida completava
A face cheia e lisa sem refegos,
Sem um só desses vincos, dessas rugas
Que são os golpes do buril do espírito
Sobre os blocos de músculos e nervos.
Sorria e eu vi seus dentes magníficos
Numa expressão alvar. Aproximou-se.
Disse-lhe então: Quem sois? Por que acudistes?
Quando eu chamei por outro tão diverso?
Teme um momo adorável, agitou
Num gesto longo de elegância altiva
A véstia e o porte erecto e o olhar fulgente
E o rosto novamente derramando-se
Num riso imbecil e triunfante
Volveu pondo-me ao ombro a mão cuidada:
"Sou Marcellus Pompônio, 'o purista'
O guia que me trouxe, esse Virgílio,
Esta ama-seca que apelidas tanto
Não me suportaria; eu sou capaz
De mostrar solecismos nas "Geórgicas"...
Fez bem: fugiu. E tu certo conheces
O gênio prodigioso que venceu
Certa causa notável, apontando
Um erro de gramática nos autos:
Sou eu. Sou imortal... Tu és feliz,
Lucraste com a troca. Folga, ri,
Agradece ao teu Deus e dá-me o braço.
Eu vou mostrar o que outrem não faria.
Já viste o inferno, vou levar-te agora
Ao purgatório e ao céu. Mas antes deles
Há uma terra ideal onde domina
A santa mediania de virtude
E se chama o 'Paraíso dos Medíocres' ".
"É ali", disse. E depois me foi levando
Por um trilho escarpado. a breve trecho,
Vingando um cerro abrupto, tive em frente
O mais belo país que eu inda vira
Que terra encantadora. O meu olhar
Desatou-se folgando na amplitude
Dos horizontes vastos onde eternos
Fulgores de uma primavera eterna
Se revezam co'as noites estreladas.
[1903?]
NUM CARTÃO POSTAL
[Em que se vê uma mulher, com roupão de banho, lendo numa praia]
A Reinaldo Porchat
Lê?... Não lê. Aquele ar não é por certo
De quem medita. É o ar de quem atrai.
E se qualquer de nós, naquelas praias,
Aparecesse, quedaria incerto,
Sem saber distinguir quem mais nos trai
_ Entre a insídia de uma onda ou de um afago
Se o velho mar misterioso e vago,
Ou esse abismo de roupão e saias!
Guarujá, 30 jul. 1904
DEDICATÓRIA
Se acaso uma alma fotografasse
de sorte que, nos mesmos negativos,
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face,
E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos... Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse,
Mesmo em ligeiros traços fugitivos...
"Meu caro Doutor Praguer!"
Te assaltaria máxima surpresa,
Notando _ deste grupo, bem no meio _
Que o mais forte, o mais belo e o mais ardente
Destes sujeitos, é, precisamente,
O mais triste, o mais pálido e o mais feio...
Manaus, 5 fev. 1905
***
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